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Empresas de maconha medicinal crescem no mercado financeiro


08/08/2017

O advogado Caio Abreu viveu de perto o drama de famílias que buscaram na cannabis auxílio no tratamento de doenças como o câncer. Com o adoecimento de sua mãe em 2006, ele recorreu à planta para aliviar os efeitos colaterais da quimioterapia. Diante dos percalços para conseguir suplementos à base de cannabis sativa, cuja importação para o País só foi liberada no ano passado, Abreu se deparou com uma indústria praticamente inexistente – mas que, em outros países, tem movimentado cifras bilionárias e alçado o posto de produto financeiro, com cada vez mais empresas listadas em bolsa.

 

Hoje, Abreu se dedica a produzir o primeiro medicamento à base da erva 100% brasileiro e está à frente da empresa que ambiciona ser líder no País em soluções medicinais à base de cannabis, a Entourage Phytolab. Nessa jornada desafiadora de explorar o potencial terapêutico de uma erva ainda tabu para tratar doenças, sobretudo as que envolvem dores crônicas, o empreendedor tem um parceiro de peso: a Canopy Growth Corporation, maior companhia ligada à maconha medicinal no mundo.

 

Avaliada em cerca de US$ 1,2 bilhão, a Canopy, do Canadá – primeiro país a legalizar o uso medicinal da maconha – foi listada em fevereiro na bolsa de Toronto, com o ticker (código de negociação) WEED. No ano passado, ela aportou US$ 3 milhões na Entourage e na Bedrocan Brasil, subsidiária fruto da parceria.

 

Bruce Linton, fundador da Canopy, começou no negócio há cinco anos – em uma situação, segundo ele, muito similar às circunstâncias atuais no Brasil, em que “mais pessoas vão para a cadeia pela cannabis do que para o mercado de ações”, brinca.

 

“O propósito do nosso negócio é criar um mercado global, legalizado no âmbito federal, para que as pessoas vejam a indústria como um negócio de longo prazo e que agrega valor por produzir em vários formatos – um trabalho científico necessário para apresentar o produto como uma oferta viável e medicinal”, diz Linton.

 

+ Um boom imobiliário impulsionado pela maconha

 

Para ele, a Entourage, diferentemente dele na época, tem o caminho já mais desbravado para se destacar no ramo, por contar com o amparo de legislação específica e “não depender de políticos, mas de reguladores”. Em maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reconheceu a cannabis sativa como planta medicinal e a formalizou como um componente a ser produzido no Brasil e também exportado.

 

Negócios. Os empreendedores do ramo apontam o potencial desse mercado não só como motor de inovação na área da saúde, mas também como investimento. A consultoria de risco Viridian Capital Advisors criou um índice para acompanhar as ações das 50 maiores companhias listadas em bolsa de valores nos Estados Unidos com atuação direta no mercado da maconha. Enquanto a valorização média da bolsa foi de 10% no ano passado, as empresas ligadas à cannabis avançaram 256%. Especialistas ponderam, no entanto, que os papeis dessas empresas são muito voláteis, alguns deles "penny stocks" (que operam a preços muito baixos) – o que exige cautela por parte do investidor. 

 

Para quem quiser investir nesse mercado sem apostar numa só companhia, já há instrumentos para diversificação. Em abril, começou a ser negociado no Canadá, o primeiro ETF (fundo que replica índices de ações) de empresas ligadas à cannabis. Batizado de Horizons Medical Marijuana Life Sciences, o fundo replica o desempenho de 14 papéis, sendo dez deles canadenses – incluindo a Canopy Growth.  Todos fazem parte da composição do Marijuana Index, índice criado em 2013 nos Estados Unidos que acompanha a negociação dos ativos de empresas ligadas à cannabis. 

 

Pioneira. A caminhada brasileira da cannabis rumo ao mercado financeiro, no entanto, é ainda longa. A entrada de Abreu nos negócios da maconha não foi imediata: quase dez anos se passaram até ele obter autorização do uso medicinal da planta e decidir largar o escritório especializado em direito societário e mercado de capitais para se dedicar plenamente à Entourage Phytolab.

 

Os desafios regulatórios em torno da planta ainda são muitos, mas os primeiros resultados, aos poucos, começam a aparecer. Em junho, a Entourage fez a primeira extração das substâncias da cannabis vindas do Canadá, em parceria com a Unicamp, para produzir o primeiro medicamento 100% brasileiro para o tratamento de epilepsia e dor crônica. “O conceito da Entourage é desenvolver um medicamento que exista na farmácia e seja acessível”, diz.

 

Segundo Paul Smithers, presidente da Innovative Industrial Properties, empresa americana ligada à cannabis que abriu capital na Bolsa de Nova York no fim do ano passado, estar na área medicinal dá mais proteção à companhia. Isso porque, apesar de a maconha não ser legal no âmbito federal nos Estados Unidos, há uma emenda aprovada pelo Congresso que proíbe qualquer perseguição contra produtores medicinais nos Estados em que a planta é legalizada.

 

A empresa de Smithers funciona como um fundo de investimento imobiliário: eles adquirem terrenos onde há plantações de cannabis em Estados nos quais a erva é legalizada. Na prática, a empresa não chega sequer a mexer com a planta e, devido ao boom imobiliário proporcionado pela cannabis e a crescente expansão do mercado, ganha com a falta de espaços.  Segundo o grupo The ArcView, o mercado de cannabis legal nos Estados Unidos deve crescer 26% nos próximos 4 anos, saindo de US$ 6,9 bilhões em 2016 para US$ 21,6 bilhões em 2021.

 

Para o gestor de investimentos Rafael Selegatto, uma empresa como a Innovative também poderia ter sido criada no Brasil, caso o uso medicinal fosse liberado e totalmente regulamentado. Ele conta que, pela especificidade e por focar mais no mercado imobiliário do que propriamente no da erva, a empresa apresenta um mercado tão inexplorado quanto.

 

No Canadá, o mercado deve crescer ainda mais com a expectativa da legalização da maconha para fins recreativos no ano que vem, conforme promessa do primeiro-ministro Justin Trudeau. "Possivelmente, será algo muito similar à venda do álcool, uma vez que, na maioria das províncias, o governo é o responsável por operar as vendas de bebida alcoólica, para que seja um produto certificado e sem risco de contaminação", explica Linpton, da Canopy. "No fim das contas, não acho que a questão central é sobre cannabis em si, mas sim que pessoas esclarecidas preferem sistemas que são controlados e organizados em vez de deixá-los para o mercado negro e os criminosos", diz.

 

Fonte: Estadão


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