A Operação 32 horas
- a opinião dos comerciários -

outubro/2006
Introdução

Em dezembro de 2005, por meio de Acordo Coletivo de Trabalho, o Sindicato dos Comerciários de São Paulo acordaram junto aos lojistas e shoppings centers da cidade a chamada “Operação 32 Horas”, que consistia na abertura ininterrupta dos shoppings centers do período das 10:00 horas do dia 23/12/2005 às 18:00 horas do dia 24/12/2005. Participaram desta operação os shoppings Ibirapuera, Tatuapé, Eldorado, Morumbi e Anália Franco.
Com o objetivo de conhecer a opinião dos comerciários a respeito desta operação, bem como o cumprimento do Acordo Coletivo de Trabalho, o Sindicato dos Comerciários elaborou e distribuiu um questionário a ser preenchido pelo comerciário. Contudo, apenas dois shoppings permitiram a entrega dos questionários a seus funcionários (Ibirapuera e Tatuapé), e apenas dois funcionários de outros shoppings (Eldorado e Morumbi) conseguiram responder e entregar os mesmos.
O questionário foi de aplicação para autopreenchimento, ou seja, o próprio comerciário preencheu as questões elaboradas, não sendo aplicado por um pesquisador ou outra pessoa do gênero.
Este trabalho, portanto, pretende tratar dos resultados obtidos dos questionários aplicados aos comerciários dos shoppings que trabalharam na “Operação 32 Horas” no Natal do ano de 2005. A elaboração dos dados bem como sua análise foi feita pela Subseção do DIEESE no Sindicato dos Comerciários de São Paulo.
Segue, em anexo, os gráficos e tabelas analisados ao longo desse trabalho.


Análise dos resultados da pesquisa quantitativa

Quem respondeu ao questionário:

Tipo de contrato de trabalho
No total, foram respondidos 649 questionários. A grande maioria (87,5%) dos trabalhadores pesquisados são assalariados com carteira assinada por tempo indeterminado (Gráfico 1). Também foram captados 5,4% (35) de trabalhadores sem carteira de trabalho assinada e 3,1% (20) de trabalhadores temporários.

Shoppings pesquisados
Conforme explicitado anteriormente, apenas dois shoppings permitiram a pesquisa junto aos funcionários que lá trabalhavam (Ibirapuera e Tatuapé). E apenas dois funcionários dos shoppings Eldorado e Morumbi conseguiram responder o questionário.
Desta forma, a grande maioria entrevistada são funcionários do Shopping Ibirapuera (90,4%), e em menor quantidade, funcionários do Shopping Tatuapé (7,9%) (Gráfico 2).

Tipo de loja em que trabalha
Quase metade dos entrevistados trabalha em lojas de roupas/lingeries (44,4%), e um número menor em lojas de calçados/bolsas (10,9%) e jóias/bijouterias/acessórios (7,9%). (Tabela 1).

Função no trabalho
A maior parte dos trabalhadores pesquisados (63,6%) é vendedor ou balconista, seguida de caixas (10,8%), gerente/sub-gerente (10,3%) e repositor/estoquista (3,7%) (Gráfico 3).

A opinião do comerciário sobre a “Operação 32 horas”

Comerciários que trabalharam na “Operação 32 Horas”
Para efeitos desta pesquisa, considerou-se que trabalharam na “Operação 32 Horas” apenas os comerciários que tiveram sua jornada toda, ou em parte, compreendida no período das 22:00h do dia 23/12 até às 08:00h do dia 24/12, uma vez que este período de trabalho é diferente do horário tradicional de funcionamento do shopping nesta época do ano, e que, portanto, a diferencia das condições de trabalho normalmente aplicadas aos trabalhadores.
Assim sendo, a maioria dos entrevistados (68,0%) que respondeu a pesquisa trabalhou na “Operação 32 Horas”, e menos de um terço não trabalhou na Operação (30,7%) (Gráfico 4).
Vale salientar que as respostas analisadas deste ponto até o Gráfico 15 foram respondidas somente por aqueles que trabalharam na “Operação 32 Horas”, ou seja, pelos 68% (450) dos comerciários que responderam a pesquisa.

Horas trabalhadas
A maioria dos comerciários (65,1%) que trabalhou na Operação teve este direito básico e elementar violado, trabalhando acima de 10 horas em sua jornada (Gráfico 5). Não raro, foram averiguadas nos questionários jornadas de 20 e até 30 horas trabalhadas ininterruptas.
Apenas 30,6% dos trabalhadores teve o limite de horas trabalhadas respeitado (30,6%), conforme determina a lei - máximo de 10 horas de trabalho por dia - e, claro, o acordo firmado.

Intervalo interjornada
O intervalo interjornada é o período entre uma jornada e outra de trabalho. Pelo acordo firmado, o comerciário tinha como direito um intervalo de, no mínimo, 11 horas de descanso.
Através das respostas obtidas junto ao comerciário, percebe-se que não houve cumprimento do acordo no que se refere ao intervalo interjornada, pois a maioria dos trabalhadores (61,1%) não teve o intervalo respeitado por parte dos lojistas desses shoppings (Gráfico 6). Sendo que destes 34,4% garantem não ter existido intervalo e 26,7% afirmam ter tido o intervalo, mas inferior ao estabelecido no acordo.
Apenas uma minoria de menos de um quarto (23,6%) dos comerciários teve respeitado o intervalo limite de no mínimo 11 horas entre uma jornada e outra.

Descanso para alimentação ou repouso durante a jornada de trabalho
Foi respeitado este descanso para a maioria dos comerciários que trabalhou na Operação. De acordo com a pesquisa, 74,4% afirmaram ter tido um descanso, seja ela para alimentação ou repouso. Todavia, pouco mais de um décimo (11,1%) dos trabalhadores não teve acesso a este direito (Gráfico 7).

Fornecimento de alimentação
Entre os 450 comerciários que trabalharam na “Operação 32 Horas”, 67,6% receberam algum tipo de alimentação ou vale-refeição durante o período de trabalho considerado. Sendo que do total de comerciários que recebeu algum tipo de alimentação ou vale-refeição, 69,7% receberam o vale-refeição. Estas refeições ou vale-refeições foram distribuídas em quantidade igual ou superior a uma unidade. Além disso, 35,5% dos trabalhadores que receberam algum tipo de alimentação ou vale, pelo menos, receberam lanche durante a madrugada e 32,9% destes o lanche da manhã do dia 24 (Tabela 2).
Importante ressaltar que no acordo firmado entre as partes ficou acertado que a administração do Shopping em conjunto com o lojista forneceria ao empregado que trabalhasse na operação um lanche da madrugada, bem como a concessão de café da manhã no dia 24. Entretanto, o acordo foi descumprido para mais de um quinto (21,8%) dos trabalhadores que trabalharam na operação, pois estes não receberam nenhum tipo de alimentação, ou auxílio para a mesma.

Transporte
Segundo dados da pesquisa, 44,7% dos comerciários perceberam o benefício do vale-transporte e 7,6% o recebeu em espécie (Gráfico 8), benefício previsto no acordo. Mas, para um terço dos trabalhadores (32,7%) que trabalhou nesse dia, os lojistas desrespeitaram o direito a concessão desse benefício, uma vez que este contingente não recebeu o transporte, nem o vale-transporte, nem o valor referente para o seu deslocamento nesses dias.

Tipos de remuneração
De acordo com o conjunto de respostas obtidas da pesquisa, a grande maioria (71,6%) recebeu, pelo menos, a comissão sobre as vendas efetuadas; um terço (33,1%) recebeu adicional noturno; e um quinto percebeu salário fixo (20,0%) (Gráfico 9).
Vale ressaltar que ao analisar as informações referentes ao adicional hora extra nota-se que somente 22,9% dos trabalhadores disseram ter recebido este adicional, enquanto é sabido que grande parte (83,8%) dos comerciários teve jornadas superiores a 8 horas durante a realização da operação. Cruzando tais informações, fica claro que houve o desrespeito por parte dos empregadores, pois, conforme firmado em acordo, os empregados que tivessem jornada acima de 8 horas fariam jus ao recebimento ao adicional de hora extra de 50%.

Sorteio de prêmios
Também ficou definido em acordo que durante todo o horário de funcionamento da “Operação 32 Horas” seriam sorteados diversos prêmios aos comerciários que trabalhassem na operação.
Quase todos (85,6%) afirmaram saber do sorteio, mas não ganharam nada. Uma pequena parcela afirmou saber do sorteio e ganhou um dos prêmios (1,1%), sendo o prêmio de maior valor declarado um DVD (Gráfico 10).
Apenas 2,9% dos entrevistados afirmaram não ter ocorrido o sorteio conforme previa Acordo Coletivo de Trabalho.

Motivo pelo qual trabalhou na “Operação 32 Horas”
Nesta questão foi perguntado aos comerciários quais os motivos que o levaram a trabalhar na “Operação 32 Horas”. Os entrevistados afirmaram que os principais motivos foram: ter sido combinado informalmente (42,2%) com o empregador, ter trabalhado na Operação para aumentar a renda (30,2%), e menos de um décimo (12,9%) de comerciários admitiu ter trabalhado com o intuito de garantir o emprego (Gráfico 11).
Outra pequena parcela disse ter trabalhado na “Operação 32 Horas” porque se viu obrigado ou constrangido (7,8%), o que configura desrespeito ao Acordo Coletivo de Trabalho, pois este previa a facultatividade do trabalho nesse dia e a proibição de qualquer tipo de coação, caso ele optasse em não trabalhar em horário diverso do seu habitual.
Ainda foi citado, mas em número menor, a possibilidade de ascensão profissional na empresa (3,1%) e de que estava previsto no contrato de trabalho (1,1%).

Problemas de saúde
Em relação a problemas de saúde apresentados pelos funcionários participantes da “Operação 32 Horas” e considerados ocorridos em decorrência desta, 40,9% afirmaram não ter apresentado nenhum tipo de problema (Tabela 3).
Todavia, uma parcela considerável (40,9%) afirmou ter apresentado algum problema de saúde. Nesta pergunta de múltiplas respostas os entrevistados puderam alegar mais de um problema decorrido da “Operação 32 Horas”. Os sintomas mais citados pelos comerciários que apresentaram algum tipo de problema de saúde foram distúrbio de sono (sonolência e/ou insônia) (56,0%); irritabilidade e mudança de humor (48,9%); aparecimento de varizes e/ou dores nas pernas (44,0%); dores de cabeça, enxaqueca (34,8%); estresse, depressão (32,6%); e lombalgias e dores nas costas (23,4%).

Assédio moral
Três quartos dos entrevistados (75,8%) afirmaram não terem sido vítimas de nenhum tipo de assédio moral (Tabela 4).
Entretanto, uma parcela pequena (6,9%) acusou ter sofrido esse tipo de assédio durante a “Operação 32 Horas”. Esta questão permitiu respostas múltiplas para o tipo de assédio moral sofrido pelo trabalhador. Do total de comerciários que sofreram este tipo de abuso, 58,1% afirmaram ter recebido pelo menos algum tipo de pressão psicológica para vender; outra parcela (25,8%) relatou ter passado por situações de constrangimento e humilhação; e um outro contingente disse que quando não realizava a venda era considerado incapaz (12,9%).

Avaliação dos comerciários:
Foi solicitado aos comerciários que avaliassem alguns aspectos da Operação 32 Horas, que compreendem o retorno financeiro, os benefícios, os prêmios sorteados, o acordo firmado entre o sindicato e os lojistas/shoppings, a divulgação do acordo em panfletos e a atuação do sindicato. Em geral, percebe-se que a avaliação foi bastante negativa do ponto de vista do comerciário (Tabela 5).
Retorno Financeiro - Quase metade dos entrevistados classificou o retorno financeiro como ruim (46,4%) e apenas 11,1% afirmaram ter sido bom o retorno financeiro. Cabe ressaltar que esta afirmação vai de encontro com a expectativa inicial do comerciário, explicitado numa pergunta, em que pouco menos de um terço (30,2%) justificou ter trabalhado na “Operação 32 Horas” porque aumentaria sua renda.
Além disso, um quinto disse ter sido o retorno financeiro regular (19,6%).
Benefícios - Dois quintos dos trabalhadores classificaram como ruins os benefícios recebidos na “Operação 32 Horas” (39,1%), 19,6% consideraram regulares, e uma parcela menor (14,0%) classificou como bons estes benefícios.

Prêmios sorteados
Quase 30% (29,8%) dos comerciários participantes da “Operação 32 Horas” classificaram os prêmios sorteados como ruins, um pouco mais de um quarto (27,1%) classificou como bons, e 12,7% consideraram como regulares os prêmios postos a sorteio.
Acordo firmado entre o sindicato e os lojistas/shoppings - 29% dos trabalhadores consideraram ruim o acordo firmado entre o sindicato e os lojistas/shoppings; enquanto pouco menos de um quinto avaliou como bom este acordo (18,2%); e uma parcela de 17,8% de comerciários o classificou como regular.
Divulgação do acordo em panfletos - Mais de um quarto dos comerciários que trabalharam na “Operação 32 Horas” avaliou como ruim a divulgação do acordo em panfletos (26,9%); pouco mais de um quinto a julgou regular (21,8%); e menos de um quinto achou boa a divulgação do acordo em panfletos (18,7%).
Atuação do Sindicato - 23,3% dos comerciários classificaram como ruim a atuação do sindicato. Contudo, apenas 18,0% avaliaram a atuação do mesmo como boa, seguidos pelo mesmo número de trabalhadores que classificou esta atuação como regular (18,0%).

A “Operação 32 Horas” no Natal de 2006
Com o objetivo de saber se o comerciário trabalharia numa provável “Operação 32 Horas” no Natal de 2006, foi solicitado a todos os trabalhadores (649) qual seria sua posição a partir da experiência do Natal de 2005 , além de saber quais seriam os seus motivos.
Mais da metade (51,6%) dos comerciários entrevistados garantiu que não trabalharia numa nova “Operação 32 Horas”, 19,6% afirmaram que talvez e, somente, 19,1% responderam que trabalhariam (Gráfico 12).

O porquê de NÃO querer trabalhar (de novo) na “Operação 32 Horas”
Dos que asseguraram não querer trabalhar novamente na “Operação 32 Horas”, a grande maioria (68,1%) refutou a possibilidade de trabalhar no ano de 2006 por não ter tido nenhuma vantagem no ano de 2005; enquanto mais de um terço dos trabalhadores não deseja trabalhar por não ter tido tempo para sua família (37,0%). Além desses, um quarto (24,8%) dos trabalhadores que não quer a “Operação 32 Horas” novamente diz esta ter atrapalhado o seu Natal; e 17,3% dos comerciários que não trabalhariam (novamente) em virtude do não cumprimento do acordo por parte dos lojistas/shoppings (Gráfico 13).

O porquê de talvez querer trabalhar (de novo) na “Operação 32 Horas”
A justificativa de uma maior compensação financeira para o Natal de 2006 foi o principal motivo de mais da metade dos comerciários (52,8%) que levantou a possibilidade de “talvez” trabalhar numa nova “Operação 32 horas”. Um terço (33,1%) dos comerciários disse que trabalharia caso venha a ter um acordo melhor do que o de 2005.
Além destes, para 20,5% dos trabalhadores essa possibilidade só será possível caso o acordo venha a ser cumprido pelos lojistas/shoppings, e 11% afirmaram que talvez possam se preparar melhor para enfrentar a Operação (Gráfico 14).

O porquê de querer trabalhar (de novo) na “Operação 32 Horas”
Segundo os comerciários que afirmaram trabalhar numa nova Operação, grande parte (58,9%) assegurou ser essa uma experiência diferente; um pouco mais que um quinto justificou por ter conseguido um bom retorno financeiro (21,8%); 18,5% expressaram o desejo de participar da “Operação” devido ao interesse pelos prêmios sorteados; e 11,3% julgaram como bom o Acordo firmado (Gráfico 15).